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domingo, 21 de maio de 2017

JERRY 8 3/4


JERRY 8 3/4 (1964)

Com “The Nutty Professor” (As Noites do Dr. Jerryl), de 1963, “The Patsy” (Jerry 8 3/4), do ano seguinte, Jerry Lewis afirma-se não só como um dos grandes génios da comédia cinematográfica, mas igualmente como um grande cineasta e um autor completo. Ele não é só o actor que reinventa um género, mas também um argumentista talentoso e extremamente inteligente e, ao mesmo tempo, um realizador subtil, sensível, inovador, moderno. 
“The Patsy” em português pode ter várias interpretações, desde pacóvio, tolo, ingénuo, trouxa, bode expiatório mas, em todas elas, acabará por resumir-se a alguém que, pelas suas características, facilmente se deixa enganar. O título português procura apanhar o impacto de Fellini 8 ½, estreado anos antes, para o associar a esta obra de Jerry que também se passa no mundo do cinema. Não é a Cinecittà de Fellini, mas Hollywood. A Hollywood dos sonhos de Malcolm Smith, um certo cinéfilo fanático de “Um Espada para Hollywood” que agora surge na figura de um empregado de hotel na meca do cinema, que um dia se descobre elevado à categoria de estrela do mundo do espectáculo, sem que tenha feito nada para isso.


Na verdade, nas imagens iniciais a câmara acompanha o despenhar de um avião e sabe-se depois que entre os passageiros se encontrava o célebre comediante Wally Brandford. Os jornais choram a morte do popular actor, mas a sua equipa chora o facto de poder vir a ficar sem emprego. Quem escreve os guiões, quem trata do marketing, quem responde ao correio, quem se ocupa da imagem do actor, quem apura a voz ou quem examina os contratos, sem actor fica desempregado. A menos que surja rapidamente alguém que o substitua. Mas quem pode ser esse alguém, que seja suficientemente ingénuo e manejável para se adaptar ao papel? É nessa altura da reunião que entra Stanley Belt (Jerry Lewis) com a bandeja com taças e champanhe para a equipa afastar as mágoas. A entrada é, como se espera, a mais desastrada possível e Stanley é desde logo olhado como possível sucessor do defunto. E todos se aprestam em transforar o desajeitado bell boy num actor de primeiríssima água. Lições de dicção, de música, de arte de representar, de boas maneiras, idas ao alfaiate das vedetas (onde Stanley Belt quer fatos ao jeito de George Raft e descobre ali ao lado o seu intérprete preferido), visitas a cabeleireiros de nomeada, tudo fazem os membros da equipa para não ficarem no desemprego. Mas a personagem visada não mostra qualquer tipo de progressos nesta difícil arte de ser quem não é. Ele é duro de ouvido para gravar canções, mas a oportunidade é excelente para se assistir a um fabuloso trio de cantoras, todas elas interpretadas por Jerry Lewis de forma magistral. Dão-se festas de lançamento da nova coqueluche de Hollywood, o que permite a Stanley recordar outros bailes da sua juventude onde tudo corre mal. Mas na festa cruza-se com Hedda Hopper, a própria, uma das mais célebres bisbilhoteiras de Los Angeles, a quem faz notar o horrível chapéu que exibe. Ela acha graça e começa a lançar as bases da moralidade do filme: a autenticidade é o mais importante a vida. Só quando Stanley se descobre igual a si próprio, durante um “The Ed Sullivan Show”, é que a magia nasce. “Tentaram transformar-me no que não sou”, lamenta-se Stanley Belt. O argumento de Jerry Lewis e Bill Richmond é extremamente bem desenvolvido e inteligente na forma como analisa alguns aspectos da máquina de criar e triturar vedetas do mundo do “show business”, no artificialismo desta fábrica de sonhos (a cena final procura mesmo “mostrar” como realidade e ficção se podem associar na manipulação do espectador). A fotografia de W. Wallace Kelleyé magnífica, bem como o cuidado posto na decoração e nos ambientes. Na interpretação, Jerry Lewis procura obviamente homenagear alguns grandes actores como Peter Lorre, Everett Sloane, Phil Harris, Keenan Wynn, John Carradine ou a jovem e bonita Ina Balin, que constituem a equipa órfã de vedeta, mas também uma série de outros que aparecem fugazmente nos chamados “cameos” e que vão dos já citados George Raft, Hedda Hopper ou Ed Sullivan, a Ed Wynn, Mel Tormé, Rhonda Fleming, Scatman Crothers, Phil Foster, Billy Beck, Hans Conried, Richard Deacon, Del Moore, Neil Hamilton, Buddy Lester, Nancy Kulp, Norman Alden, Jack Albertson, Richard Bakalyan, Jerry Dunphy, Kathleen Freeman, Norman Leavitt, Eddie Ryder, Lloyd Thaxton, Lorne Greene, Pernell Roberts, Michael Landon, Dan Blocker e Fritz Feld. Até o argumentista Bill Richmond tem uma curta aparição, como pianista. Personalidades umas mais conhecidas do grande público do que outras (mas todas bastante reconhecíveis para as plateias norte-americanas), o seu aparecimento nesta obra é um óbvio reconhecimento do seu talento e uma justa homenagem do cineasta aos seus pares. Este foi o último filme de Peter Lorre, que morre antes da sua estreia, e um dos derradeiros de Everett Sloane (este actor desaparece depois de integrar outro filme ao lado de Jerry Lewis, “The Disorderly Orderly”, igualmente de 1964). 
“The Patsy” inicialmente chamava-se “Son of Bellboy”, procurando de certa forma ser uma continuação de “The Bellboy” (Jerry no Grande Hotel), primeira realização de Jerry Lewis em 1960. Inclusive o protagonista de ambos chama-se Stanley. 
Curiosidades extras: a cena inicial do desastre de avião foi inicialmente rodada para "The Mountain" (A Montanha), de Edward Dmytryk (1956). Introduzida com aproposito nesta obra. Existe um filme de 1928, interpretado por Marion Davies, chamado igualmente “The Patsy”. Nada a ver com este.
JERRY 8 3/4 
Título original: The Patsy 
Realização: Jerry Lewis (EUA, 1964); Argumento: Jerry Lewis, Bill Richmond; Produção: Ernest D. Glucksman, Arthur P. Schmidt; Música: David Raksin; Fotografia (cor):W. Wallace Kelley; Montagem: John Woodcock; Casting: Edward R. Morse; Direcção artística: Cary Odell, Hal Pereira; Decoração: Sam Comer, Ray Moyer; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Wally Manley, Harry Ray, Jack Stone, Wally Westmore; Direcção de Produção: William Davidson; Assistentes de realização: Ralph Axness, Dale Coleman, Howard Roessel; Departamento de arte: Jim Cottrell, Earl Olin, Gene Lauritzen, Martin Pendleton; Som: Howard Beals, Charles Grenzbach, Hugo Grenzbach, Bud Parman; Efeitos visuais: Farciot Edouart, Paul K. Lerpae; Companhias de produção: Paramount Pictures, Patti Enterprises; Intérpretes: Jerry Lewis (Stanley Belt / SingCantoras do Trio), Ina Balin (Ellen Betz), Everett Sloane (Caryl Fergusson), Phil Harris (Chic Wymore), Keenan (Harry Silver), Peter Lorre (Morgan Heywood), John Carradine (Bruce Alden), Hans Conried (Prof. Mulerr), Richard Deacon (Sy Devore), Del Moore (policia), Scatman Crothers (engraxador), Neil Hamilton (barbeiro), Buddy Lester, Nancy Kulp, Lloyd Thaxton, Norman Alden, Jack Albertson, Henry Slate, Gavin Gordon, Ned Wynn, Rhonda Fleming (Rhonda Fleming), Phil (Mayo Sloan), Hedda Hoppe (Hedda Hopper), George Raft (George Raft), Mel Tormé (Mel Tormé), Ed Wynn (Ed Wynn), Ed Sullivan (Ed Sullivan), The Four Step Brothers (The Step Brothers), etc. Duração: 101 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 6 anos. 



JERRY LEWIS E A COMÉDIA NORTE-AMERICANA
A comédia americana teve, entre os anos 20 e 30 do século XX, um período particularmente brilhante, durante o qual o burlesco foi rei. São desta época os nomes de Charles Chaplin, Buster Keaton, Mack Sennett, Harold Lloyd, Irmãos Marx, W. C. Fields, Harry Langdon, Laurel e Hardy, Chester Conckin, Mack Swain, Mabel Normand, Ben Turpin, Larry Sernon, Fatty Arbuckle, Charley Chase, Andy Clyde, Louise Fazenda, Joe. E. Brown e alguns mais.
Utilizando os mais variados processos e recorrendo a figuras de características muito diversas, os actores atrás mencionados nada deixaram de pé, após a sua passagem explosiva e purificadora. Era o período das gargalhadas mortíferas que provocavam uma autêntica política de "terra queimada". Depois seguiu-se um tempo relativamente descolorido e medíocre que caracterizou as duas décadas seguintes e se prolongou ameaçadoramente pelos anos de 60. Havia ainda em 40 cineastas como Frank Capra, Leo McCarey, Frank Tashlin, Howard Hawks, George Stevens, entre outros, que nos deram comédias admiráveis. Mas nunca mais apareceu o grande cómico de completa autoria. Os homens para todo o serviço, do drama à comédia, abundavam, em contrapartida. Referimo-nos a Norman Taurog, Michael Gordon, Henry Koster, George Marshall, Normam Panama, Richard Thrope, Joshua Logan, Norman Jevison (na sua primeira fase), Charles Walters, George Sidney, etc., etc. O que não quer dizer que por vezes esses realizadores não lograssem obras de referir. Já na década de 60, como exemplo, aqui deixamos alguns títulos que melhor ilustram a permanência de um género de tradições nobres nos E.U.A: “Conversa de Travesseiro” (Michel Gordon), “Ela e os seus Maridos” (J. lee Thompson), “Uma Americana em Paris” (Robert Parrish), “O Mundo Maluco” (Stanley Krarner), “Vêm aí os Russos!” (Norman Jewison), “As Noivas do Papá” ou “Quando Ele era Ela” (Vincente Minnelli), etc.
Mas os anos de 60, para além de meia dúzia de revelações, rodam-se sob os auspícios de Billy Wilder (“Quanto Mais Quente, Melhor”, “Beija-me Idiota”, “O Apartamento”, “Irma, La Douce”, “Como Ganhar um Milhão”, “A Vida Intima de Sherlock Holmes”, “Amor à Italiana” ou “A Primeira 'Página”); Richard Quine (“Sortilégio de Amor”, “Quando Paris Delira”, “A Ingénua e o Atrevido”, “Como Matar sua Mulher”); Blake Edwards (“A Pantera Cor-de-Rosa”, “Um tiro às Escuras”, “A Grande Corrida à Volta do-Mundo”, “What Did Vou Do in the War Daddy?” ou “A Festa”) e Jerry Lewis. Sobretudo Jerry Lewis. Retomando a tradição dos grandes criadores (Chaplin, Keaton, Marx, Lloyd, etc.), Jerry Lewis foi por essa altura o único a poder ombrear com o nome dos seus geniais predecessores. Posteriormente haveria que ter em conta um autor/actor como Woody Allen (“O Inimigo Público”, “Bananas”, “O Grande Conquistador”. “O ABC do Amor”, “O Herói do Ano 2.000” e tantos outros filmes que alternam a comédia e o drama, por vezes num registo de belíssimo humor da melhor tradição judaica da língua yiddish), ou um cineasta também actor (e também judeu) como Mel Brooks (“O Falhado Amoroso”, “Balbúrdia no Oeste” ou “Frankenstein Júnior”). A verdade é que Jerry Lewis, Woody Allen e Mel Brooks asseguraram um lugar insubstituível ao "humor judeu" norte-americano. 
Depois do riso demolidor dos irmãos Marx, depois da turbulência exaustiva de Bucha e Estica, depois do trágico lirismo de um Chaplin ou Keaton, Jerry Lewis, sobretudo a partir de 1960 (data da sua primeira realização, “Jerry no Grande Hotel”), aparece-nos como o mais directo continuador desses cómicos geniais. 
A carreira de Jerry Lewis pode dividir-se cronologicamente em três períodos de características definidas, denunciando um esforço contínuo e sistemático de renovação e superação, de amadurecimento de linguagem e enriquecimento de processos. 
Quando, em 1949, Hal Wallis contrata a dupla Jerry Lewis-Dean Martin, oferecendo-lhe uma carreira na Paramount, ele pensava sobretudo em arranjar substitutos para uma outra dupla que caía progressivamente em descrédito (Abbott e Costello). Durante alguns anos, grande parte do público e a maioria da crítica teimou em ver neles sucessores menores do burlesco. Jerry Lewis, embora colocado nos “top ten” dos filmes do ano (no que se refere a receitas, logo a adesão de público), era crismado de "palhaço", mero fazedor de "caretas" gratuitas, cómico de segundo plano. Raros foram os eleitos que, para lá do aparente desinteresse de certos filmes (devido à banalidade de alguns argumentos e à mediocridade da realização de quase todos), vislumbraram uma personalidade própria, um cómico de características seguras, um actor que, de obra para obra, aperfeiçoava o seu jogo, dominava os fabulosos recursos histriónicos e gestuais, impondo uma figura e, por detrás dela, uma personalidade. 
Nesta primeira época, que vai até 1956, Jerry Lewis (sempre acompanhado por Dean Martin) interpretou dezasseis títulos que, de um modo geral, parodiaram, de forma irregular e resultados variáveis, algumas instituições americanas e diversos "géneros" da cinematografia daquele país. Ele havia passado pelas forças armadas, satirizando o exército ("Recrutas... Sentido"), a marinha ("Marujo, o Conquistador"), a aviação, melhor dizendo, os paraquedistas ("Os Heróis do Medo"), e também as experiências atómicas e o sensacionalismo dos mass media ("O Rapaz Atómico"), o golf ("O Grande Jogador"), as corridas de cavalos ("Dinheiro em Caixa"), o filme de terror ("O Castelo do Terror"), o western ("O Rei do Laço"), o circo ("O Rei do Circo"), o show business ("O Estoira Vergas"), os comics, o filme de gangsters e o "musical" ("Pintores e Raparigas"), Hollywood e o star system ("Um Espada para Hollywood), etc. 
À mediocridade de alguns destes filmes, opõe-se a riqueza de imaginação, a vertiginosa sucessão de gags, a fulgurante acutilância crítica de um Frank Tashlin (autor de "Pintores e Raparigas" e "Um Espada para Hollywood"), cuja colaboração com Jerry Lewis parece ter sido profundamente influente na futura carreira do actor. Somente, e por instantes, Norman Taurog se lhe assemelha, nalgumas sequências de "Os Estoiras Vergas", "O Rapaz Atómico" ou "Barbeiro e Professor". Muito, porém, do que de melhor vários destes filmes da primeira fase de Jerry Lewis comportam é-lhe ainda devido, dado que, sob diversos pseudónimos, é o actor quem interfere ao nível da criação de gags e seu desenvolvimento. Com a ruptura verificada em 1956 entre Jerry Lewis e Dean Martin (ruptura essa que é consequência em grande parte, de ciúmes deste último, em virtude do êxito popular do sócio, que lhe ensombrava a imagem), o primeiro torna-se o seu próprio produtor, rodando sob a direcção de Tashlin (de alguma forma, a partir daqui, seu "mestre espiritual"), várias obras de que é protagonista isolado: "Jerry, Ama-seca", "Jerry no Japão", "Cinderelo dos Pés Grandes", "Dinheiro e só Dinheiro", "Um Namorado com Sorte", "Jerry, Enfermeiro sem Diploma", entremeadas com outras que não se lhes comparam em importância e significado. Os contornos da figura de Jerry Lewis vão-se definindo, ganhando contextura, multiplicando-se já em heterónimos, partes de um mesmo todo que o actor pulveriza em direcções diversas. Entre a grande ingenuidade e o profundo pânico perante a realidade que o cerca e a que se não consegue adaptar facilmente, entre a pesada herança do matriarcado e o pavor do sexo oposto, entre o culto abnegado da amizade, que o conduz a situações de excessiva boa vontade (que contra ele próprio se voltam), e a crueldade da humilhação física e moral a que constantemente o sujeitam, entre a inconsciência do perigo e a solidão desesperante, Jerry vai progressivamente desenhando uma personagem que, em traços excessivos é certo, mas de rara lucidez, nos devolve a fisionomia do americano médio, povoado de temores e frustrações, aterrorizado (e fascinado) pelo envolvimento mecânico, pela agressividade do comportamento, pelos traumas colectivos. Um dia, o crítico Robert Benayoun chamou-lhe um "anti-James Dean" e com alguma razão, dado que a figura de "desadaptado" em relação à realidade social norte-americana se expressa a um nível de total desromantização, de ruptura risível. Produto de uma sociedade industrializada até à medula, competitiva ao desregramento, ele é o retrato robot desse descontrolamento geral, que em termos sociológicos se poderá chamar "alienação". Uma personagem em busca de uma identidade, de um equilíbrio impossível, eis Jerry Lewis. 
A partir de 1960, à dupla responsabilidade de actor-produtor, alia a de realizador e argumentista creditado. O cómico atingiu a estatura de "autor total" e assume-se por inteiro. "Jerry no Grande Hotel" assinala a estreia e, daí em diante, dez títulos impõem-no como uma das grandes certezas não só da comédia americana, como da cinematografia moderna. Em 1963, com "As Noites Loucas do Dr. Jerryll" (que será possivelmente uma das suas obras mais perfeitas), adapta "O Médico e o Monstro", de Robert L. Stevenson e, a partir dessa base, critica asperamente uma América onde o "intelectual é vexado e ridicularizado e cujo génio é motivo para gracejos perpétuos (Julius Kelp) e onde o monstro da agressiva vulgaridade (Buddy Love) é preferido e louvado" (Benayoun dixit). 

sábado, 7 de janeiro de 2017

DR. ESTRANHOAMOR


DOUTOR ESTRANHOAMOR (1964)
 
Sob a fórmula de sátira que leva ao absurdo as consequências últimas da Guerra Fria, “Doutor EstranhoAmor” alerta-nos para os perigos de um desastre nuclear, pondo a descoberto os índices de falibilidade das medidas de segurança utilizadas, perante o gigantismo dos interesses económicos e da tecnologia bélica. Kubrick afirmou-o, aquando da estreia: “Trata-se de um filme que mostra um general louco que lança bombardeiros atómicos sobre um país adversário. A partir daí o mundo começa a levar as coisas a sério, só que é um pouco tarde.”
“Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb”, com argumento de Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George, segundo romance de Peter George (“Red Alert”, ou “Two Hours to Doom”) vê a sua acção polarizada em três cenários diferentes, mas convergentes nas suas acções que se interpenetram, numa montagem em paralelo: uma base militar norte-americana, isolada, onde se encontra um general enlouquecido; a sala redonda do Pentágono, onde o presidente dos Estados Unidos e os seus conselheiros políticos e militares tentam remediar a sabotagem; o interior de um bombardeiro que depois de ter recebido ordens para dar cumprimento ao plano de “ataque R”, se precipita para o interior da União Soviética, com a finalidade de destruir objectivos militares. Da conjugação das situações nestes três locais nasce o suspense desta obra de humor corrosivo, brilhantemente interpretada por Sterling Hayden (o brigadeiro Jack D. Ripper, um perigoso belicista louco), Peter Sellers (compondo três personagens: capitão Lionel Mandrake, adjunto de Jack D. Ripper, Merkin Muffley, presidente dos EUA e Dr.Stangelove, um técnico alemão, meio robot, com um teimoso braço direito que não se cansa de se projectar para a frente, numa clara saudação nazi), George C. Scott (general 'Buck' Turgidson), Keenan Wynn (coronel 'Bat' Guano) ou Slim Pickens (major T.J. 'King' Kong).


Este filme integra-se numa corrente de ficção política que na década de 60 teve várias obras de idênticas intenções, nomeadamente “Sete Dias em Maio”, de John Frankenheim, e “Missão Suicida”, de James B. Harris, até então produtor de Stanley Kubrick, e que com essa realização se emancipava como director, iniciando uma nova carreira. Mas este filme de Kubrick é claramente superior às outras obras (muito embora a evidente qualidade de ambas), e isso deve-se à magnífica realização deste cineasta, e sobretudo ao tom de humor escolhido. Kubrick não perde uma oportunidade para sublinhar um efeito de sátira: o piloto do bombardeiro norte-americano lança-se sobre terra russa, cavalgando uma bomba nuclear, tal como um vulgar cowboy de tempos heroicos; toda a carga simbólica de personagens como o brigadeiro louco (e a sua teoria da ameaça bolchevista: a degenerescência dos fluídos corpóreos!); o próprio Dr. Stangelove; a crítica ostensiva ao militarismo de um inconsciente general Buck Turgidson, que, depois de desencadeada a crise, já com os bombardeiros a caminho da URSS, justifica o aproveitamento desta decisão, com a explicação de que uma tal ocorrência apanharia os soviéticos desprevenidos e permitiria acabar com o seu poderio, “com um mínimo de perdas humanas, qualquer coisa como apenas 120 milhões de soviéticos e 20 milhões de americanos”; ou ainda o fabuloso bailado final, quando sucessivas explosões nucleares se fundem num apocalíptico cogumelo de destruição, tendo como banda sonora uma romântica valsa (sequência que está certamente na origem de certas ideias de sonoplastia desenvolvidas depois em 2001).
Um filme brilhante, de um homem desencantado e corrosivo quanto ao futuro do Homem. Um futuro que Kubrick irá antever sob uma perspectiva inteiramente nova, no filme seguinte, a sua primeira incursão no campo da ficção científica, “2001: Odisseia no Espaço”.


DR. ESTRANHOAMOR
Título original: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb

Realização: Stanley Kubrick (Inglaterra, 1964); Argumento: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George, segundo romance de Peter George (“Red Alert”, ou “Two Hours to Doom”); Música: Laurie Johnson; Fotografia (p/b):  Gilbert Taylor; Montagem: Anthony Harvey; Design de produção: Ken Adam; Direcção artística: Peter Murton; Maquilhagem: Stuart Freeborn, Barbara Ritchie; Direcção de produção: Clifton Brandon; Assistentes de realização: Eric Rattray; Som: John Aldred, Richard Bird, John Cox, Leslie Hodgson; Efeitos Especiais: Wally Veevers, Alan Bryce, Arthur 'Weegee' Fellig, Brian Gamby, Garth Inns, Mike Shaw; Efeitos visuais: Vic Margutti; Produção: Stanley Kubrick, Victor Lyndon, Leon Minoff.; Intérpretes: Peter Sellers (Capitão Lionel Mandrake/Presidente Merkin Muffley/Dr. Strangelove), George C. Scott (General 'Buck' Turgidson), Sterling Hayden (Brigadeiro Jack D. Ripper), Keenan Wynn (Coronel 'Bat' Guano), Slim Pickens (Major T.J. 'King' Kong), Peter Bull (Embaixador soviético Alexi de Sadesky), James Earl Jones (Tenente Lothar Zogg), Tracy Reed (Miss Scott), Jack Creley (Mr. Staines), Frank Berry (Tenente  H.R. Dietrich), Robert O'Neil (Almirante Randolph), Glenn Beck (Tenente  W.D. Kivel), Roy Stephens (Frank), Shane Rimmer (Capitão G.A. 'Ace' Owens), Paul Tamarin (Tenente  B. Goldberg), Gordon Tanner (General Faceman), John McCarthy, Hal Galili, Laurence Herder, etc. Duração: 93 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 25 de Julho de 1974.